Recado para quando você for embora

Acho que se retirar faz parte do processo, faz parte do que a gente chama de “auto responsabilidade”. Eu sei que dói quando as pessoas vão embora, dói ainda mais quando as amamos e mesmo assim elas não ficam. Mas também tem a nossa vez. Também precisamos ir embora quando não nos encaixamos mais, quando o amor fica em último lugar, quando tudo é prioridade, menos a nossa presença interna.

Não precisa sair de uma vez e bater a porta. Não precisa escancarar para o outro o quanto ele foi ruim ao deixar de lado o que era para estar na frente. É só sair aos pouquinhos, sabe? Porque na verdade, o outro só sentirá sua falta quando ele precisar.

Sim. Isso magoa. Mas é verdade.

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Você vai transformar sua dor

Eu sei que essa sensação irá passar. Hora ou outra. Não sei quando. Mas é claro que vai acabar!

Você vai conseguir sonhar de novo e acreditar que existe sim alguém que irá te amar desinteressadamente. Mas é claro que vai conseguir!

Vai parar com essa ideia de que está adoecendo toda a sua família com seu desprazer com a vida. Claro que vai parar!

Um dia você estará longe dessa doença de alguma forma. E que essa dor é só por enquanto. Claro que estará!

Um dia você vai dizer que aprendeu e sentirá orgulho só em estar vivo.

É claro que vai!

Quando você morrer por dentro

Quando você tiver pena do corpo que lhe carrega

Quando você chorar escondido por não querer incomodar mais ninguém

Quando o seu sofrimento já bastar

E quando você quiser, finalmente, dizer-se fim…

Experimente regar a sua alma um pouco mais.

Espere:

Ainda há jardim aí dentro. Só está seco.

Senhor, grata eu sou pelo tempo que se foi, pelo mundo que girou, pelas verdades que apareceram, pelas desculpas pedidas e perdões sinceramente cedidos.

Quando ao resto, Pai, está novamente entregue a Ti. Só o Senhor saberá o que fazer e como me moldar.

Obrigada!

Mais uma vez.

Entregue ao Pai

Eu estou em um carro. No banco do passageiro. Viajando. Alguém muito importante e que me ama está me levando a algum lugar. Eu não sei dirigir. Mas não preciso me preocupar com a direção, com as marchas, com os freios. O motorista saberá a hora de parar e onde parar. Ele e eu sabemos o que deixamos para trás e o que trazemos na bagagem. O caminho é longo. É esburacado. Eu enjôo fácil. As vezes peço para parar e descansar. Ele para. Sentamos na estrada e descanso encostando em seu ombro. Às vezes decido desistir. Nos lugares que queria ficar ele não para. Eu não entendo. Entristeço. Choro. Em outras vezes a gente para no sinal vermelho. E tudo bem. Mas quando o sinal fica verde ele não segue. Todos os outros seguem. Choro de novo. “Não é a nossa vez” -Ele diz-. Confio. Depois seguimos viagem. Com mais algumas coisas na bagagem. Quando o carro vai ficando pesado paramos em uma praia. Jogo no mar aquilo que não preciso mais. Voltamos. Continuamos. Enjôo de novo. Eu não sei para onde eu estou indo. Dói. Mas eu tenho um carro. Eu tenho um motorista. Tenho uma estrada. Eu não preciso me preocupar com o fato de não saber dirigir. Ele não dorme. Ele só para quando preciso e só segue quando é a minha vez.

O motorista é meu Pai. Deus. A estrada é tudo o que ele escreveu para mim. Ela está, literalmente entregue em suas mãos.

Te amo, Papai. Obrigada por me fazer filha tua.

(Escrito durante uma crise de pânico.)

Meu melhor amigo

Eu poderia, hoje, escrever sobre as pessoas que se foram, sobre a decepção das que ficaram, sobre o amor que nunca deu certo ou até sobre a sorte que não vem. Poderia dizer até como tenho me sentido só ao olhar para o lado e não ver quem eu queria ver, estar com quem queria estar.

Mas de repente, tudo se resume a você, meu amigo. Tudo. Eu lembro que você sempre ficou, que quando eu estou chorando desprotegida é no seu colo que me enrolo, que quando a solidão bate é você que vem e me abraça. Assim, do nada, eu sinto que a sorte é ter você, ter a sua presença, fazer de mim o seu lugar e do seu lugar o melhor lugar. Entende?

Você anda comigo quando caminho por estradas que você não gosta. Não desiste de mim quando fujo enquanto você me empurra para o enfrentamento ou até quando eu acho que a vida do vizinho é muito melhor do que a minha.

Jesus. Meu querido amigo…

Quantas histórias nós temos para contar juntos, não é? Minha alma soluça de emoção só de saber das vezes que fomos felizes e choramos pertinhos um do outro, quando afastava o perigo de mim já que eu não queria me afastar do perigo e me mandava a real sobre tantas e tantas situações que me deixavam mais ingênua do que o que já sou.

Eu te amo pelo que você é, amigo. Absolutamente, longe de você nenhum instante aqui teria sentido. Eu quero te abraçar sempre, quero estar sempre contigo, quero que você sorria muito e que todas as pessoas conheçam a sensação única de sentir a plenitude do seu amor.

Tutorial sobre como sair da cama

Isso não é sobre a posição que você dorme ou sobre o tempo que você leva entre acordar e levantar. Isso é sobre conseguir encarar o mundo da fora.

Primeiramente, a sensação é a de que há um buraco no meio da cama. E aquilo te consome. Aquilo te faz querer ficar ali, inerte, o dia inteiro. A vida inteira. É como se nada além daquele espaço quadrado cheio de cobertores fizesse mais sentido ou valesse a pena. (E Vocês não tem noção da importância que é, para um pessoa em fragilidade emocional, sair daquela zona de conforto que se tornou a própria dor.)

Você vai ficar ali acordado um tempo. Vai querer mover os pés, os braços, o tronco. Mas haverá um desânimo que pesa sobre seu físico. Haverá algo mais forte do que os sinais que o seu cérebro manda para os seus músculos. Ainda terá tempo para querer voltar a dormir e duvidar que aquela seja mesmo a hora de dar as caras ao mundo. Você vai suar frio. Vai pensar nas possibilidades que pode criar para dar um telefonema dizendo que, por motivos de força maior, não poderá honrar com seus compromissos hoje. E por incrível que pareça, algumas vezes, você não terá “forças” para dar um telefonema. Mas e aí?

Comece a refletir sobre viver as verdades óbvias. Não há buraco. Não há ninguém mais forte segurando seus braços, suas pernas e seu tronco. O tempo é aquele mesmo. E você manda em você. Você consegue se desvencilhar da sua dor, transformá-la em caverna. Não em lar.

Olhe para cima, imagina o que tem além do seu quadrado, pense na imensidão do que você já é (e nem sabe) e pode conquistar. Lá fora? Lá fora há pessoas de carne, osso e erros. E acertos. Há gente. E não importa o que elas pensam a seu respeito, porque quando você voltar para casa é com você mesmo que tem que lidar. E elas voltam para seus lugares, com as mesmas opiniões formadas sobre tudo como diz a música.

Levanta aos poucos. Levanta por dentro antes de tudo. E não canso de repetir que esta não é uma guerra entre você e você mesmo. É uma batalha entre você e aquilo que quer te roubar.

Eu sei que é difícil. Mas não permita. Você não está sozinho!

A sua fé acordará e você levantará dessa cama com ela.

Sabe aquela “gente”?

Tem gente que a gente sente. Que temos saudade mesmo estando perto e temos medo só do fato de ter que ir.

Tem gente abrigo, que acolhe e encolhe para nos caber no próprio coração. Gente que enlouquece de repente quando a gente fica cego tentando enxergar por outras lentes.

Tem gente que a gente pensa e sente alívio só de pensar. Que está ali, em algum lugar. Que nos acalma só por estar.

Tem gente que a gente ri. E ri de gratidão por fazer parte daquele “sentir”. Gente que nos faz imaginar durante um tempão sobre alguém pode ser assim. Desse jeito. Desse modo.

Tem gente que não se perde no tempo. E tem gente que chega sendo surpresa, marcando seu próprio relógio comandado por intensidades e não segundos.

Tem gente que acrescenta. Gente que nos frequenta todas as vezes que decidimos amar. Tem gente aviso. Que nos desperta para as verdades tão bem escondidas.

Tem gente real. Que vale mais que dinheiro e nos tira das vielas sujas das resistências emocionais. Gente que não mendiga e nem cobra. Tem gente que é obra e doa toda arte que puder doar.

Tem gente que abraça de perto e que nos toca de longe. E assim, nas suas diversas formas de abraçar nós também nos descobrimos casa.

É assim… Tem gente que nos rouba só para nos ensinar a voltar a ser nosso próprio teto novamente.

Ah… Como eu amo essa gente.